PROJETO MORADA DE BARRO: PROMOÇÃO DO CONTINUUN DA CULTURA CONSTRUTIVA TRADICIONAL CAIÇARA
Resumen
As áreas afastadas dos centros urbanos na região da Serra do Mar do Estado de São Paulo, Brasil, apresentam-se em ótimo estado de conservação ambiental e são lugares de redutos de populações tradicionais caiçaras.
Originadas pela miscigenação entre índios nativos e brancos colonizadores, as populações caiçaras estão instaladas no litoral sudeste brasileiro e possuem profundo conhecimento dos ciclos da natureza. Sua cultura construtiva baseia-se na utilização do material terra com a técnica da taipa-demão. A evolução da arquitetura tradicional brasileira ao longo da história está relacionada com a paisagem e com os materiais locais desenvolvendo soluções adaptadas ao clima e à cultura. A colonização portuguesa trouxe uma arquitetura europeia que com o passar dos séculos produziu também soluções adaptadas ao clima brasileiro, sendo a arquitetura caiçara um exemplo deste processo evolutivo.
A expansão das cidades, a especulação imobiliária e o turismo sem planejamento ameaçam estes locais de paisagem exuberante, colocando a cultura local em contextos de pressão externa e transformações. As Unidades de Conservação e as diversas leis de proteção ambiental têm um papel importante na conservação, porém, atualmente, a discussão de ocupação nestes locais acontece essencialmente na escala do planejamento. A legislação atual indica as diretrizes de melhoramento das habitações e da ocupação valorizando o saber caiçara, que deve ser incentivado e aprimorado dentro de um processo de continuum cultural e de pesquisas de tecnologias apropriadas. Para isso são necessárias experiências práticas que demonstrem a capacidade do material terra de responder aos anseios do habitar contemporâneo.
Neste contexto, o presente artigo apresenta o projeto desenvolvido pelos autores com as comunidades caiçaras do Município de Ilhabela, Litoral Norte do Estado de São Paulo, Brasil, desde 2009. Intitulado Morada de Barro, o projeto tem como objetivos promover o continuum da cultura construtiva tradicional caiçara, a melhoria da qualidade da habitação e a conservação da paisagem em áreas protegidas por meio da qualificação dos construtores locais e aprimoramento da técnica de construção em taipa-de-mão.
Os dados e análises que embasam o trabalho foram obtidos por meio de pesquisas dos autores. O projeto é realizado de modo participativo, considerando que os princípios de valorização das culturas locais e da participação comunitária são processos educativos que valorizam o indivíduo e a qualidade técnica das construções. Contribuem também para conscientizar sobre a importância da utilização dos recursos naturais e dos saberes locais presentes na arquitetura vernacular para a construção do desenvolvimento sustentável.
Os resultados obtidos com o projeto relacionados ao levantamento de custos, dificuldades de transporte e soluções, estão contribuindo para a criação junto ao poder público de uma política de habitação nas comunidades tradicionais.